O Agilista e o Martelo

Vamos discutir tudo o que é entendido como certo, verdadeiro e indiscutível?

a hammer, relating to the post's title

Estamos acostumados a sempre discutir e debater sobre como as coisas são ou como elas deveriam ser no nosso ambiente de trabalho, com o uso da filosofia trazemos essa discussão sobre o que fazer ou como conduzir nossas ações e suas ambiguidades, dado que o mundo é do jeito que ele é. O que fazemos em nossos projetos profissionais, e as decisões que tomamos no nosso dia-a-dia, acabam se inserindo nesse contexto de uma forma ou outra. O objetivo desse post é fomentar uma ruptura nas certezas e verdades estabelecidas dentro de todo conhecimento criado em torno da “Agilidade”. O artefato central dessa discussão é o conhecimento, a forma como interagimos com ele e a forma como usamos ele (ou ele nos usa?). Não vejo forma melhor de começar essa série de provocações senão definindo o que é conhecimento para mim:

 

| Conhecimento é uma crença justificável.

 

Ou seja, perspectiva e conhecimento estão diretamente relacionados! Uma “coisa” serve como conhecimento até que acreditemos que outra “coisa” possua justificativas que superem as anteriores. Se observarmos uma empresa como uma organização que produz conhecimento, é possível concluir que o ponto de vista do indivíduo que lida apenas com uma parte da realidade não é o suficiente. O conhecimento não é apenas parte da realidade. É a realidade, mas vista a partir de um determinado ângulo. A mesma realidade pode ser vista diferentemente, dependendo do ângulo (contexto/circunstâncias) do qual se vê.

 

“Na criação do conhecimento, não se pode ser livre do seu próprio conceito. — Nonaka & Takeuchi”

 

Os contextos econômico, cultural e histórico são importantes para os indivíduos que produzem conhecimento. Esses contextos permitem a interpretação da informação e a criação do significado que se deseja transmitir. É por isso que a externalização do conhecimento pessoal pode levar a falsidades ontológicas e falácias (Spotify model, SAFe, story points, Scrum…), pois a complexidade total de um determinado fenômeno pode permanecer oculta. Por isso, quando criamos conhecimento é importantíssimo ver todo o quadro da realidade (perspectiva) interagindo com outros que a vejam a partir de outros ângulos, isto é, compartilhando seus conceitos! E a partir desses conceitos é que podemos julgar se o conhecimento a ser transmitido é útil ou não ao nosso contexto atual.

Há quem acredite em certezas imediatas, tais como: scrum é ágil, SAFe é a melhor opção para escalar agilidade, estimativas são imprescindíveis sem nem procurar os conceitos por trás. Me perguntei: o que leva essas pessoas a se tornarem ferramentas do conhecimento ao invés de usar o conhecimento como ferramenta? Elas acham que usam o conhecimento, mas na verdade o conhecimento as usa.

O poder das Ideias de Massa

Acredito que o problema principal são as causas que normalmente vem acompanhadas dessas ideias, causas onde os gestores têm onde se agarrar, causas que sempre vem acompanhadas de um grande vislumbramento de como a organização poderia/deveria ser melhor (ideologia). O ponto é sempre colocar as ideias a seu serviço, você será pragmático quando isso lhe for útil. Isso significa que você entende que todas as ideias podem ser úteis se usadas de forma puxada pela situação/contexto. É diferente de tentar impô-las como verdade para todos os contextos existentes/inexistentes como se fossem coisas sempre iguais (outra certeza imediata que consultorias de grande porte vendem). O perigo de se identificar com a ideia é se tornar viabilizador e propagador dela (a ideia te usa), ao invés de beneficiário de sua efetividade perante o contexto/problema que você vive hoje.

 

“The issue is one of defining your identity by membership of a social group rather than simply a tool user. For example, you could use Pragmatic philosophy without identifying yourself as a Pragmatist. The important thing is not to let an idea, concept, tool or technology define you. A software engineer who uses Java is okay. A Java Developer is not okay. — David J Anderson”

Complexity

Isso tudo na prática

Como o gestor pragmático pode voltar a conhecer, a criar princípios? Só há um meio: experimentando! Os caminhos que levam para cima são sempre diferentes, já os caminhos que levam para baixo, são sempre os mesmos. Fazer do seu projeto um experimento é a única forma de criar conhecimento com real valor para a sua organização. Admitindo que não existem contextos iguais, partimos da premissa de que todo o conhecimento produzido e acumulado sobre gestão, do qual temos acesso, não nos dá nenhuma certeza imediata quanto a efetividade.

 

Exemplo: muito se discute sobre a dualidade Eficiência x Eficácia, em qual investir primeiro? Qual priorizar dado o meu contexto? O que o framework XPTO fala sobre isso? E se eu te dissesse que os dois são uma única coisa? Faz parte do senso comum achar que quando estamos criando ideias (upstream) a eficácia predomine, pois não queremos cometer o erro de construir a coisa errada, e na construção (downstream) a eficiência é mais importante para fazer as coisas de forma rápida. Porém se nos colocarmos além dessa dualidade é possível enxergar um outro ângulo: focando eficácia apenas no upstream (opções de ideias) temos o risco de ocorrer starvation no downstream (solicitações de execução), sem eficácia no downstream é necessário confiar cegamente no upstream para que seja eliminado os riscos de demandas que não entreguem valor entrarem no fluxo. No final das contas a realidade é bem mais complexa do que estamos acostumados a categorizar (pensamento cartesiano do século XVIII) e arquivar como “certezas” em nossas mentes.

 

Toda essa teoria pós-moderna de criação do conhecimento organizacional que foi apresentada aqui, pode ser estudada com mais aprofundamento técnico na obra Gestão do Conhecimento publicada por Hirotaka Takeuchi e Ikujiro Nonaka. A definição ocidental mais comum sobre o que é conhecimento enfoca a “veracidade” (conhecimento das coisas em si) como atributo essencial para a construção do conhecimento, ou seja, esperam que a verdade seja sempre limpinha. Aqui alimento a natureza do conhecimento como “crença justificada” onde a perspectiva tem mais valor do que a “veracidade”, isso serve como um convite para uma grande pluralidade de ideias e experimentos que ainda estão por acontecer, essa experimentação permitirá uma gama completamente nova de conhecimentos, mais audazes, mais genuínos!

E você? Como tem sido sua relação com o conhecimento?

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